comunista desejosa de glamour hollywoodiano. anarquista com apego material a coisas emocionais. plagiadora que exige direitos autorais



domingo, 17 de julho de 2016

Em entrevista exclusiva, Silvia fala sobre os anos 10, gentrificação e outros assuntos recorrentes de forma desordenada



De repente.
(Em entrevista exclusiva, Silvia fala sobre os anos 10, gentrificação e outros assuntos recorrentes de forma desordenada.)
Repórter: Silvia... Comente esta declaração de 2009:
“A outsidermariginal quase terrorista que quer evidencia.
Silvia mora num porão, um dia ela vai sair anunciando a revolução caminhando em um tapete vermelho e provavelmente cantando Somewhere Over The Rainbow ou algum sucesso da filha de Judy Garland. Pobre Silvia, a pseudomártir das causas modernas perdidas e que agora só quer um resto de glamour e deixar o recinto com alguma dignidade.”
S: Já perdi a dignidade faz tempo. Faço desuso dela pra sobreviver. Vou adentrar o recinto mesmo que sem nenhuma. De cinturão e tudo. Mulher bomba purpurina, porque esse ano eu não morro! Há uma diferença enorme entre kamikaze e crash test dummy. Sou a segunda opção. E não que eu seja um boneco manipulável, sem opinião ou atitudes próprias. A fada azul me deu vida! Veja bem eu nasci no meio do caminho. Mas estou bem. Já esta provado o que só é possível no estrago que dá acelerar na frente, entrar em choque com o tempo e voar na inércia dos acontecimentos. Amanhã to aí.  Segura essa marimba.
Repórter: Quem são os outsiders?
S: Acho que talvez fosse Silvia e o lumpen proletariado, Silvia e os B, Silvia e os Marginais, Silvia e as Garotas que erraram. Silvia e o Cangaço, Silvia e os Trapalhões nas minas do rei Salomão. Faz tanto tempo... não me lembro.
Repórter: Onde está Bee?
S: Bee esta na selva. Isso eu posso te garantir. E Bee tá certa. Ela devia ir mesmo pra Selva.
Repórter: E você?
S: Essa esquina gentrificada que é o microclima de nosso mundo é pouco pra Silvia. Ela esta nos muros nos postes nos viadutos no metrô no galpão 4 da funarte no Iphan no olho esquerdo do Acaiaca esquerdo  do edifício Acaiaca (mais conhecido como botocudo art decó) nos cordéis nos bueiros nas calçadas na selva na cordilheria no mar no sertão no lambe lambe silvia vende poema xerocado no bar ela está na portas dos banheiros, nos mictórios públicos eu sei que são poucos mas ela esta lá. Silvia não morreu. Ela pulsa em algum lugar ela só aguarda a chegada das armas. Que provavelmente chegarão amanhã.
Silvia estará de volta em breve. Reivindicar seu posto. Esse cinturão é meu! Não vou bater em ninguém pra ter ele de volta. Ele é meu e ponto. Eu que inventei mesmo. Inventei pra não competir com nenhum canalha, pra não ter que bater em nenhum camarada. Sejam originais o suficiente pra plagiar. Criando a própria história, obviamente. Minha doença de século XX não vai deixar hipster nenhum absorver minha energia! Pode ganhar seus louros! Como louro não me interessa, fico com a vida. A minha vida. Cada um sabe a dor e a delicia e cê sabe como é... só queria dizer isso Baby.
Repórter: Qual é a sua doença? 
S: Não sou eu que darei nome às minha doenças... Provavelmente será você.
Repórter: Mais alguma declaração?
S: Eu sou a vanguarda do cerrado. E depois dizem que não é verdade que tem gente que recolhe nossos cacos, dá cor, dá beleza e canta. Eu cuspo, nos cuspimos. Alguém recolhe e canta. E VENDE! Nunca quis ser ninguém além d’eu mesma. Tudo bem. Vai lá, spia só. Os cacos reconfigurados! Olha só que beleza pós entressafra essa chuva de novos confetes! Novos baianos te podem curtir numa boa?
Eu comecei tudo e ainda não terminei. Tá longe de terminar. Pode vir que tem mais.
Repórter: O que é que tem mais?
S: O tempo tá estranho. O tempo tá urgente. Tudo tão urgente que a gente mal sai do lugar.
O novo capitalista é um lumberjack de barba perfumada. Tudo da cor conforme a cor de novas cinco ou seis cartilhas que nem são tão novas assim. Ama teu vizinho como a ti mesmo, mesmo que ele seja um grilo na comunidade, é isso mesmo Silvio? Tá rolando amor?
Repórter: Há quantos anos você está desaparecida?
S: Silvia desapareceu há cinco anos. Soltando uma cusparada aqui e ali. Mas estava escondida... até a chegada das armas! E parece que elas estão chegando mesmo. Amanhã. Creio eu.
Então ela vai voltar de metralhadora, granada espelhada y tacones lejanos. Vamos ver o que acontece.
Era 2010 e ela chorava... um desencontro, talvez? Agora pode ser que haja encontro quizas. Ela se acostumou na solidão e está custando a querer sair. Ela sairá no dia das armas. Que discurso vai proclamar? Que fuzil vai carregar, que canção ela vai cantar?
Repórter: Esse fuzil é...
S: Metafórico.
Repórter: ... Não sei.
S: Os anos 10 chegaram como a onda prevista por Chico Xavier em dia de boi da manta. Será que ela não esperava? Ela vai preferir desafinar o coro desde o bueiro, do porão, do buraco, ela vai sair? Esse coro é bonito... Tem muita voz valendo a pena. Ninguém vai me chamar? Não precisam mais de mim? E quem disse que sou “precisa”? Minha gloria está no desajuste e na imprecisão dos meus humores! Eu não preciso ser chamada, eu aconteço! Ela vai parar de doer? Aparece uma maneira menos magoada e irônica de desvelar e de desnudar o que há séculos é ruim. Ela vai viver nas sombras desse novo tempo? Ela vai viver esse tempo novo? Porque mesmo ela doía?
Repórter: ... Não sei.
S: Como ainda fode essa porra de século XX, tanta herança mal resolvida.
Repórter: Os inimigos são os mesmos.
S: E qual é a boa?
Repórter: E qual é a boa?
S: E qual é a boa?
Repórter: Silvia, você vai viver este tempo novo?

(a reportagem foi interrompida aqui, Silvia desapareceu... E essa repórter virou uma mula sem cabeça e sumiu no mato).

domingo, 1 de novembro de 2015

O que é que a gente faz depois da orgia?

O que é que a gente faz depois da orgia?
A essa altura do campeonato?
Se a orgia não deu conta de todos os buracos. Se os buracos não são mais buracos e são outros buracos que hoje são cavados. E se mané resolver destapar o mesmo buraco? E se encher buraco não preencher? E se preencher não resolver? E se buraco foi feito pra ser buraco que nem poro foi feito pra respirar? E se o tempo for a doença. E se doença for só um nome. E se nome for doença. E se o buraco for mais embaixo?
E tem tanta gente insistindo em cagar na nossa cabeça e dizem que urubu quando tá azarado o debaixo caga no de cima, mas em terra de saci, meu amor, todo chute é voadora! Então deixa eu cantar que é pro mundo ficar Odara. E tem gente que ainda grita que tudo tudo tudo vai dar pé...

E eu digo e insisto até que o elevador chegue: Vai dar pé! Vai dar pé! Vai dar pé!

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

recurso antigo. mas ainda uso.

Recurso Dramático

Solicito revisão (suplicante lhe peço) da minha (nova) inscrição tida como inabilitada por ausência de documentação que comprovasse a minha irregularidade para com a refazenda burocrática anual da vida que tem sido mais ou menos parecida em se tratando de certidões.
Minha solicitação amorosa se dá a partir de questionamentos perplexos, já que me é vedada a complementação cordial e amistosa e jeitosa dos documentos, pois não tenho piroca, e tenho o coração inabilitado, a cabeça inadimplente, os pezinhos e os pulmões irregulares... Mas, eu recorro:
1) Há muito tempo eu fiquei calado mas agora eu resolvi falar: metateatro burocrático de coisa nenhuma! Ô ABRE ALAS QUE EU VOU PASSAR SEM CARIMBO!
2) Mesmo não constando em edital, peço clemencia, antes de desistir de completo e fechar os olhos no paredão. E ao fim de cada ato limpo num pano de prato as mãos sujas do sangue das canções!
3) Sinais de fumaça! O mundo até tem papa. Ó.
4) Pensando bem... Não vale a pena Ah! Ah! Ficar tentando em vão... O nosso amor não tem mais solução Não! Não!
5) Não!... Data vênia quiproquó status quo charadá! L'imagination au pouvoir. Who´s bad?
a) e ela disse sim. Vem Kafka comigo...
b) plat zum!
6)  Fico horas fumando o tempo, engolindo a vida pelo pulmão.  Sempre fui brega. Devo confiar mais em meus instintos, mas antes eu preciso distinguir instinto e razão. Não?
7) Não vou receber por MEI, pode me arrombar que dei com os “buros” n’água.


Atenciosamente,
Marina Viana Pereira
RG: MG12410666785

CPF: 0539601718636

Sinopses

Sinopse hum
Eu gravei uma fita pra você.
Uma fita de MPB
E não sei por que.
Sinopse Dois
O que o pagode e o axé fez pelo o seu discurso político?
Belo Horizonte em fevereiro responde.
Sinopse Três
Eu digo: Play
Você diz: Play
Eu rebobino e você clama por stop.
Eu digo pause você insiste stop.
Bola pra frente. Forward.
Sinopse Quatro
Por favor preciso de um fast forward pra entender nosso estado de plays!
Sinopse Cinco
Manifesto. Porque gosto de afirmações, exclamações e perguntas retóricas. Canção pop por que quero uma ponte para a conclusão com solo de guitarra ou bateria.
Sinopse seis
De repente não quero mais falar disso tudo.
De repente meu teatro desapareceu.
Sinopse sete
De repente. Silvia reapareceu.
Sinopse 8
Silvia reapareceu por que falaram que ela virou passado. E ela gritou: qual é?
Silvia reapareceu genia, vanguarda e emancipada e gritou: Eu sou a verdade do cerrado.
Tem ironia na frase de Silvia. Só que não.
Não matem minha geração antes do tempo. Não rotule minha geração no meio do caminho! Não transforme meu play em passado!
Não liguem pra mim!
Silvia chora de mágoa e volta para o porão. E começa uma nova canção bandeirosa e irracional.
As armas não chegaram, mas eu estou a postos!
O que era velho rejuvenesceu de repente. Arbitrariamente, em doses homeopáticas, de imprensa golpista e mídia chinfrin.
Mas o que é novo ainda tá lendo na minha cartilha, meu bem!
Sinopse 5.000
Paquita! Paquita!

Personagens:
Silvia
Bee
Paquita
Cumpadre Washington
Baby Boomers
Allen Guinsberg
Roberto Piva
Geração anterior
A próxima geração
Geração entre safra
Crise de identidade
Os horizontais
Os verticais
O quadro de Otto Dixx que está no pompidou
Caetano Veloso
Torquato Neto
João Santos
Jonatta Doll
Genival Lacerda
O cinema brasileiro
David Bowie
Tom Zé
Alex Queiroz
Angela Roro
Charles Chaplin
Gravador 1
Gravador 2
O pereira
Capitu
Movimento dos Dramaturgos das Alterosas.

Ronnie Von

MPB. Canção para o retorno de Silvia. Parte I


(Reunião no porão de Silvia.)
- Fecha a janelinha. Ainda não é hora de cuspir no chão.
- Claro que é.
- Talvez seja melhor esperar um pouco.
- Você não sabe fazer diálogos
- Quem disse que não, já fiz vários.
- Então, por que estamos aqui?
-  Eu voltei. Voltei novamente.
- Ainda não sei o que dizer.
- Calma. Estamos na entressafra.
- Isso não é verdade.
- Verdade.
- A verdade é minha.
- Eu sou a verdade do cerrado.
- Não sei o que eu quero fazer.
- Eu não sei por que eu estou aqui.
- As armas não chegaram
- Eu só quero é botar meu bloco na rua
- Cala essa sua boca e escuta!
-  Não tem nada pra escutar por enquanto. Estamos na entressafra.
- E seu eu me calasse?
- Você não quer se calar.
- E se eu só dançasse?
- E se você cuidasse do jardim?
- E se eu dormisse.
- E seu voltasse?
- E se você escrevesse? E se você chorasse?                  
- Você não chora há tanto tempo.
- Você quer me dizer alguma coisa?
-  O que foi feito de vera de tudo que não há mais.
- Estou um pouco cansada.
- Estou irresponsável
- Estou com sono.
- A gente pensa nisso amanhã?
- Posso apagar a luz?

- Hoje eu não consigo mais 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

umbigo I

Tem canção que não cabe na sua boca. 
Tem balada que não te encara.
Tem verdade que só te esbarra
Tem vontade que fracassa no ponta pé
Tem coisa que não tem jeito
Tem coisa que já era
Tem coisa que nasceu morto
Tem coisa ruim pra burro
Tem gente que não é pra amigo
Tem gente que não é
Tem gente que não é
Ah eu quero escrever algo com mais sustança
Tem gente que não é
Tem gente que dói
Tem gente que nem
Tem gente que nem
Eu tô só orando pra quem é lindo
Ah eu queria escrever alguma coisa com sustância

E eu aqui gastando meu tempo com gente que não é.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Carta de Amor para velhos amigos II

Eu tô gritando desde o meu quartinho. Eu tô procurando no meu quartinho o botão debaixo da cama. Perdi o botão...
Perdi.
Eu tô gritando desde o meu quartinho uma vontade de ver você, e você, e você, e você.
E nós. Nós duas.
O botão se perdeu estafado de algum passado, de algum recente terremoto que tive que segurar durante a maior parte do tempo sozinha.
Sumiu.
Alguém viu? Só me dei conta hoje. E só hoje me deu vontade de chorar.
Não choro há tanto tempo. Eu estou aqui chorando sem o meu botão!
Que merda, hein?
E cadê vocês? Não me abandonem nessa tarde de domingo!
Eu peço todas as desculpas necessárias. Ou não peço porra nenhuma.
Fui uma amiga ruim? Ou fui uma amiga desinteressante?
Se fui desinteressante, aí não tem desculpa. Dou razão a vocês. Podem sumir. Podem desaparecer. O negócio é que perdi o botão. Tá perdido no meio de concessões e resto de mágoa que já passou da hora de virar brisa. Fumaça. Banho de descarrego. Ralo.

Então vou fazer o seguinte, vou achar o botão e play.  Let´s play that.

Vou chorar e voltar pra vocês.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Cartas da Mãe [1]

São Paulo, 26 de dezembro de 1979.

Mãe,
Eu fui bom este ano, mãe. Eu acho que fui muito bom. Eu fui solidário como todos os meus irmãos Betinhos. Fiz greve como todos os Lulas. Quebrei Belo Horizonte como todos os peões. Voltei pro país que me expulsou como todos os Juliões. Dei murro em ponta de faca como todos os Marighellas. Cantei as prostitutas, as mulheres de Atenas e joguei pedra na Geni como todos os Chicos Buarques. Aspirei cola como todos os pixotes. Fui negro, homossexual, fui mulher. Fui Herzog, Santo Dias e Lyda Monteiro.
Fui então muito bom este ano, mãe. Aqui está minha carta sapato. Vou fechar os olhos, vou dormir depressa. Esperando que meia-noite todos entrem pela minha janela. Me façam chorar de alegria, que eu quero viver!
A bênção, 
Henfil
Belo Horizonte, 12 de agosto de 2014.

Mãe[1],
Tô escrevendo o texto do espetáculo novo e resolvi escrever uma carta pra você. A peça fala de Brasil. Brasil república. Acontecimentos políticos marcantes. Hoje cedo tava pesquisando coisas do Henfil, e me deparei com as cartas que ele escrevia pra mãe dele na Isto é. Achei bonita a coincidência quis escrever pra você.
Escrevo pra você. Como uma carta para a mãe que me ajudou desenhar a minha utopia dentro do teatro.
Parece que tô tendo que reinventar meu jeito de escrever, para que as pessoas queiram parar pra me ouvir.
A gente sempre acha que tá fazendo algo novo, que descobriu a roda, quando na verdade tudo é tão velho que imagino olhares cansados de gente que já viu de muito a tudo olhando pra mim. E quem tem cinco anos e não viu nada ainda?
Mãe, o que vô diria dos tempos atuais? O que Drummond escreveria? Mãe me dá a mão? Mãe, o que você acha da polícia? Mãe, cê me desculpa eu sumir vez em quando?
Sara, o que é que tem de clássico nisso tudo? Quando John morreu chorava-se por quem? Por ele ou pelo sentimento de um Belchior que diz que a velhice nos faz voltar ao padrão de nossos próprios pais? Por que a esquerda envelhece e fica branda e a direita se mantem nos mesmos moldes imperiais de quem sempre comeu o pão de alguém? Que copo de cólera enraivece quem pensa demais e enraivece quem não pensa porra nenhuma?
Em Sobre Dinossauros, Galinhas e Dragões eu clamava por uma “historinha nova”, perguntava “que bandeira eu dou, que camisa eu visto que refrão eu decoro?”... Eu sei que há historinha nova, eu sei que bandeira dar e que camisa vestir. Mas por que eu tô tão desamparada, perdida e sem cojones? Por que me sinto só?
Pai, você me ajuda no dever de casa?
Henfil escrevia pra mãe nos anos setenta, do meio para o fim da ditadura. Eu te escrevo dos anos dez do meio para o fim do capitalismo? Do início pro meio do renascimento de pensamentos reacionários zumbis? Cambuta de fedapada!
Escrevo-te dos anos dez com muita saudade.
Te amo.
Marina

Resposta Sara:
No importa si es nuevo o viejo lo que se dice… lo que importa es que salga de dentro y no sea  un ropaje… tampoco importa volver a ser tus padres si ellos fueron capaces de instalarse en su tiempo de forma intensa o de seguir siendo honestos hoy con lo que creen…  Tampoco importa  que la izquierda (o lo que resta de ella) sea blanda. Lo que importa es que a veces se  haga algo que le sirva a alguien…
Marina no estás sola... aunque no esté en este proceso contigo físicamente... lo estoy como lo están tus padres y todos los que dejamos alguna huella en ti.
Sara





[1] Escrevi, inspirada nas “Cartas da Mãe”, do Henfil, uma carta para minha mãe, para o meu pai e outra pra Sara Rojo, minha quase mãe, diretora e parceira do Mayombe. A Sarita respondeu e acima tem um fragmento da sua resposta. Meus pais responderão. Tenho certeza que sim.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Gosto de sujo de propaganda

(primeiro exercício do ateliê de dramaturgia, feito em 7 de agosto de 2014)

Gosto de sujo de propaganda.
Lá na esquina.
Lá na esquina, esta palavra carregada de Clube que me causa cansaço e ressaca de tanto ouvir e ouvir vinil velho. Mas eu gosto.
Eu gosto da esquina.
Lá na esquina, hoje, ele passou por mim.
Ele passou por mim.
Na esquina em que Odilon/Djavan cantava e dançava como deus e foi atropelado e que ainda não sei, ainda não sabemos se ele morreu ou não.
Lá na esquina de Odilon mendigo deus atropelado, ele passou com sua cara estampada numa Kombi, junto de um 45 e um coração vermelho.
Meu coração é vermelho e me assustei quando ele falou comigo.
Meu coração é vermelho repito. E isso não é mensagem subliminar.
A propaganda falou comigo, e eu de coração vermelho.
Ele, o neto do primeiro presidente civil depois de uns 20 anos de generais e que morreu antes da posse. (quando pequena eu já identificava a arquitetura de Niemeyer, mas não entendia bem as palavras. Achei que ele seria velado na Pampulha).
Ele me disse: comei todos e bebei.
ELE me disse: comei todos e bebei?
A foto do playboy falou comigo! Menina! Ele dizia. A foto do playboy falou comigo! Menina! Ele dizia.
Ele dizia: há muitos e muitos anos atrás (badaladas de sino de São João Del Rey) Jesus multiplicou os pães. (badaladas de sino de São João Del Rey) Transformou água em vinho! (badaladas de sino de São João Del Rey). Ele dizia e eu perplexa gargalhava junto com os sinos. E mandou espalhar a boa nova.
 E mandou espalhar a boa nova!
 E mandou espalhar a boa nova!

Que boa?
Que nova?
O que ele queria dizer com isso?
O que ele queria dizer com o que dizia? 
Quele dizia?
Ele queria dizer que a história é nova?
Ele queria dizer que a notícia corre?
Ele queria dizer que mentira velha vira verdade?
Borba Gato nunca esteve em Sabará?
Saiu no Estado de Minas?
O que o estado de Minas queria dizer?
O que dizer do Estado de Minas?
Minas não há mais.
O que dizer?
Ele disse: o que dizer?
Estou embriagado. Ele disse
Estou orando. Ele disse.
Estou chorando. Ele disse.
Você chora? Eu disse.
Eu também. Eu disse.
Ele disse que Jesus foi para o deserto e foi seguido pela multidão.
O que é ser seguido? Ele não sabe.
Ele não saberá nunca.
Ele estava de ressaca.
Ele estava emotivo.
Ele estava atropelado por um ônibus.
Ele estava vazio como a serra do curral.
Ele é só um retrato triste do curral.

Mas e aí, playboy, dói? (badaladas de sino de São João Del Rey).

sexta-feira, 25 de julho de 2014

amanheci vanguarda, genia e emancipada!

eu não tenho mais idade para pobre de espírito. não tenho mais tempo pra larápio. não tenho saco pros mesquinho. tenho muito o que fazer.
e vou continuar vivendo
vou continuar fazendo.
quem não quiser fazer comigo que me copie depois.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Estou à venda, estive à venda. Estou cansada.  De tal forma que tudo é ruim. E minha cabeça dói. E não sei o que fazer. Que lado seguir. Entender o que eu quero com isso tudo. De repente tudo se perde de novo.  Tempo de pensar. Antes de enlouquecer. Continuar. Antes de enlouquecer. Eu não me poupo eu não me pouco.
É isso.
O que eu fiz até aqui. Isso é só pra eu não me perder. Antes de me perder eu tenho que entender. O que eu fiz até aqui. Isso é pra eu não me perder.
Uma porção de livros. Frases e expressões minhas no facebook.  Uma vontade de sumir por uns tempos. Dada a minha incapacidade de desligamento desse mudo disperso e pouco.
TPM, ansiedade ou o que for. Eu tô loca aqui. Eu tô loca aqui. Estou a venda. Estive a venda. Estou cansada. E minha cabeça dói. E não sei que fazer. Que lado seguir. Entender o que eu quero com isso tudo. De repente tudo se perde de novo. Tempo de pensar. Antes de enlouquecer. Continuar. Antes de enlouquecer. Eu não me pouco eu não me poupo.

É isso.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014


Eu nunca tive cachorro na infância. Quer dizer, tive um, que ficou três meses no meu apartamento, pra desespero de Laninha e depois foi pra fazenda, onde ele definitivamente foi muito mais feliz, longe do motor da máquina de lavar, perto de outros cães e no meio do mato.
Sempre fui um tanto seca com animais de estimação, como boa menina de apartamento.
Mas como toda boa menina de apartamento, eu sempre sonhei com casa com cachorro e quintal.
E de repente passei a tê-los em casa, uma casa que, apesar de todas as evidencias em contrário, tem quintal.
Tem um muro escrito There is no Place Like Home no meu quintal.
Tinha um cachorro que sentava do meu lado quando eu chorava, ou quando eu simplesmente ficava sentada de frente para o muro do quintal.
Não aprendi de pequena como cuidar de um cachorro. Cuidar dos dentes, cortar as unhas, dar banho com xampu próprio para cães, ração própria para o tamanho, raça e idade.
Os cães que convivi na infância comiam angu.
Os cães que convivi na infância, andavam sozinhos na rua.
Os cães que convivi na infância não dependiam de mim...
Fui aprendendo a cuidar de cães na cidade grande depois de adulta e vir morar sozinha. Depois de ter a minha casa. Sim, esta é a minha casa. A casa que tem o escrito no muro.
Eu tropecei sim, e ainda tenho muita antipatia de pet shop, e tantos produtos caros pra cães e gatos. Não consigo levar a sério uma veterinária que sugere acupuntura para cães.
Isso tudo é muito pessoal. Não tô criticando ninguém. Sô filha de um veterinário que foi socialista na juventude e que sempre teve birra de cachorro de madame.
Talvez por isso eu seja assim tão displicente.
Mas ninguém pode negar que eu tive um cão. E que tivemos uma história. Eu nunca imaginei que diria isso, por que nunca liguei muito pra animais de estimação. 
Hoje eu tô chorando por causa de um. Que morreu no meu colo, e que eu custei a perceber, ou acreditar.
Hoje eu tô chorando por que eu fiquei sozinha em casa e nem ele tava aqui pra me fazer companhia. 

Hoje eu tô chorando tanto que acho que nunca mais vou ter um cão. Só se eu um dia for morar na roça, e ele possa comer angu, andar pela rua e ser livre de mim.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Bom dia.
Eu digo, bom dia.
Amanheci sem escrever mais uma vez.
Aconteci oca essa manhã
Desaconteci.
Não tomo remédios mais.
E atuo, em algum lugar.
tô viva.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Banana rosa de mim mesma (não, isso não é uma mea culpa, é só uma reflexão do umbigo que abarca a vida toda)

Tenho pensado muito nisso. Minha informalidade é o meu maior pecado. Mesmo sendo um pecado que às vezes levanto como bandeira de virtude.
Minha informalidade fere o brio de muita gente. Tenho pensado muito nisso. Muita gente faz cara feia pra minha INFORMALIDADE. Mas eu te garanto que eu me estrepo muito mais que qualquer um por causa disso. Sou informal, marginal, amadora e quase velha. E dura.
Daí eu decidi, mais uma vez em levantar bandeira: em teatralizar/ESPETACULARIZAR o meu maior pecado. Por que entre a formalidade e o ritual, continuo sendo hippie. Vai saber onde eu vou parar.

Deu pra entender? Eu ainda não sei se eu entendi. Mas vamo lá.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

comitê de escracho permanente

Noite Belo Horizontina ou comitê de escracho permanente:
(na minha porta, no meu peito no meu cigarro)
Deriva
Deriva
Deriva
(Dia. Dia comum. Rua movimentada). Uma mulher e um megafone no centro da Praça Sete.  Set de filmagem ou escracho cinematográfico.
-Obelisco
Obelisco
Pelourinho
Pirulito
Paralelepípedo. 
Paralelepípedo .
Proparoxítona.
Flácido, tráfego, bêbado, trôpego.
Modigliani!
Chico Buarque de Hollanda merece o nosso respeito.  Pablo Picasso sabia muito bem roubar idéias e fazer mulher chorar!
Chuta a família mineira, e depois traz pra mim um café, Nice.  Madame Bovary “Ce moá” “cé moá ““ce moá”.
(discursa sozinha, dá ordens, dirige uma superprodução).
- Gente! Gente! Por favor! O trem já vai sair!
Villa Lobos nos aguarda na Casa do Conde de Santa Maria para maiores informações.
Não sei se os caipiras avançaram. Pergunte a produção. Pergunte a Santa Maria!
Pergunte a Nossa Senhora da Bad Trip!
A última palavra de Picasso: MODIGLIANI
A última palavra de Prometeu: Resisto!
A resistência e a desobediência civil já podem se posicionar.
Vamos fazer um teste.
Todos os triângulos rosa!
Atenção todos os triângulos rosa! Por favor, juntemonos  no trenzinho. Tem espaço na vã.
Carlos? Carlos? Por favor, Carlos? As britas estão no meio do caminho. Preciso que faça para mim um castelinho de areia, sim? Coloque o castelo dentro da Kombi, quando terminar.
Senhor Adolph Hitler! Adolph Hitler! Antes de o senhor saltar do viaduto da Floresta é preciso é preciso é...
Não se atreva a subir no viaduto Santa Teresa!
Índios de Gothan City não comece ainda. E não deem ouvidos ao pastor.
O solilóquio do índio Acaiaca começa em cinco minutos.
Quando foi a ultima sessão de cinema?
E o que foi feito de Vera?
Senta no cimento que a barricada tá embalada a vácuo.
Eu quero Chacrinhas de açúcar e Julieta no balcão! Onde está Julieta?
Julieta! Eu sei que você está aí. A luz está acesa!
Agora todas as janelas do Iphan, vão se abrindo lentamente...
Eu quero todas as janelas!
De novo: Todas as janelas! O que acontece com as janelas do meu quarto?
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)
Olha a chuva!
É menrtira!
Anarriê!
Tur!
Ó Esteves!
Não precisa a metafísica! Só um pouco de areia brita e água.  Se ainda tem ferro nas almas, te garanto que o barroco ainda escorre do concreto.
Não é o trem. Foi o metrô. O metrô não, o trem. Não o trem, mas o trem. O trem.
Trem.
Gostaríamos de agradecer a Cia. Valle del Rio Dulce, por nos proporcionar este belo momento. Sem a Valle jamais realizaríamos este trem.
Não se reaproximem do Minas Tênis Clube a essa altura do campeonato.  E não alimentem os quatis. A minha vida é essa! Criar desumanidades na grande roça, elefantes e mineiros não esquecem jamais, dizem que gostam de amendoim, e não é ilusão de ótica, é mágoa subindo ladeira em ponto morto.
Descer floresta enquanto o lobo não vem.
Ok, Carlos... Quando foi mesmo que você subiu a Bahia nu?
Alguém te deu crédito? Senhor de costas para o mar?
É preciso cantar. Antes de expulsar mais uma geração pra ver a lagoa.
Cantar o quê? Porra! E não me pegue no braço! Sou jacu.
Pianinho. Pianinho. Pianinho.
Eu vou aprender a cantar só.
Coro de morcegos e todo o trânsito do viaduto aos seus postos.
Adolph já pulou? Por quê? Quem mandou? 
Arranjem outro. Pode ser o prefeito. Quem está na janela redonda?
Julieta por que apagou a luz?
O curral, a serra e o rey.
O curral, a serra e o rey.
O curral, a serra e o rey.
Ah minha vida toda!
O curral, a serra e o rey.
Não se aproximem do IPHAN!!
Um espectro ronda.

Uma mágoa barroca ronda nossos ombros.

Só a dor de cotovelo nos UNE.

Não temos passe livre.

Ainda.

Carlos? Carlos? E agora?
(continua)



terça-feira, 17 de setembro de 2013

perdão.

sábado, 14 de setembro de 2013

Belo Horizonte
Tem horas agora que eu quero te largar, te deixar pra trás, te esquecer como nunca quis antes. Tem hora que eu quero cuspir nesse asfalto e rasgar uma a uma minhas cartas de amor que te fiz e queimar num coreto qualquer. Numa pracinha qualquer, numa esquininha qualquer, num butiquim qualquer.
Tem horas que eu olho pra você e você me joga na cara todo o meu sonho de coletivo, de grupo, de história, de teatro, de amor, de amizade, de historinha nova, e me joga fora dentro de um bueiro sujo entupindo uma Cristiano Machado inundada de carros, descaso, propagandas do Aécio, água e BRT.
Tem horas que eu não sei o que fazer com esse trem. Esse trem que de repente esvaziou. Meu coração precisa te esquecer pra voltar a te amar.
Não sei se a bupropiona vai me fazer esquecer, vai me fazer fumar menos, vai me fazer doer menos a vontade de depois que dói o externo e deixa tudo nublado.
Cada dia guardo um olhar diferente pra você. E nesse momento você só me dói. Só me dói.
Não ouso dizer que te odeio, mas eu te odeio.
Te odeio por toda madrugada que te caminhei, por toda boca de lobo, por toda vontade que no fim dá sempre errado, todo mundo! Inclusive eu mirando o próprio cu. Te odeio por todos os teatros fechados, por toda rua com nome de índio, por toda esquina saudosista. Todas as igrejas clubes, savassis, serras, JKs e Niemeyers, te odeio por toda mágoa que eu herdei, por toda essa desconfiança de que alguém vai descobrir onde escondi a porra do queijo, e que o santo é de pau oco, que o progresso tá dentro desse contorno e que a liberdade tá no ponto mais alto. Desse triste viaduto da Abraão Caram. Desse mundinho. Mundinho, que me aprisionei. Te odeio cidade. Te odeio por fazer isso comigo. Te odeio por me trancafiar aqui dentro, sem horizonte horizonte horizonte horizonte.
Cidade eu não rolei no seu asfalto o suficiente, mas de que adiantaria? Adiantaria? Você me amaria? Você não me ama. Você não me ama! Você não me ama. Eu insulto o burguês. Ódio ao burguês! Ódio cidade.
Ninguém vai entender meu escarnio momentâneo pelo curral.  Foda-se. Eu grito do alto dos piolhos entupida de cachaça e os militares não passarão. Eles não sabem o que fazem mas também não sou cristo então eles que se fodam junto com o viaduto, Fernando Sabino e Drummond. O meu nome não é Raimundo, tampouco me importa o mundo nesse sábado de manhã. Hoje não tem carnaval, nem procissão. Mas todas as janelas estão fechadas de luto.
Eu quero muito que isso passe, por que eu preciso te amar. Mas hoje eu te odeio.
Do fundo do meu coração.

Eu tô chorando e já quero te pedir perdão. Mas hoje não. Hoje nada de perdão. Nada. Não.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Teu bom só para o oco, minha falta!
Careta é sua mentira
Careta é o seu dragão que é falso
Careta é seu nariz torto pra mim
Careta é sua cara de mala leche!
Careta é seu desdém
Careta é seu carão empostado
Careta é seu punque empolado
Careta é você num lapso de momento, num ato corriqueiro
Numa dor de cotovelo, numa mágoa guardada, num fracasso qualquer
Representar séculos de patriarcado
Séculos de macho branco sempre no comando
Séculos de burguês burguês
Séculos de mulheres frigidas
Mulheres frágeis
Mulheres que competem entre si
Careta é você querer me dar nome
Careta é você reverenciar qualquer um por medo
Careta é você taxar qualquer um por medo
Careta é você achar que eu já tenho nome
Eu tenho a minha dor,
Eu tenho a minha alegria
Eu tenho a minha medida
Teu bom só para o oco, minha falta
Careta é sua inveja
Careta é vidro espelhado
Vidro temperado
Blindex
Careta é ator de novela de dente branco e sem sombra
Careta é ator de novela não ter poro aparente
Careta é o William Bonner
Careta é achar que só o William Bonner é careta.
Careta é minha TPM triste.
Careta é meu ciúme
Careta é meu egoísmo
Careta é meu rompante
Não meu rompante não é careta por que eu assumo minhas fraquezas
Eu sou fraca
Careta é minha inveja
Careta é meu recalque
Careta é recalque.
Careta é achar que tudo é recalque
Não que eu não goste de Freud
Não que eu não saiba de Freud
Careta é achar que é tudo simples
Careta é achar que é tudo difícil
Careta é não tentar
Careta é não compreender
Careta é repetir modelo antigo
Repetir modelo antigo
(Repetir modelo antigo!)
Mesmo o tempo te pedindo outra coisa
Careta é tanto ajuste
Careta é insistir no desajuste
Careta é sofrer calada
Careta!
Careta é não doer nunca
Careta é doer demais
Careta é achar que eu sou pra casar
Careta a sua mania de não querer quebrar a cara
Careta!
Careta é carro grande que até a maçaneta é maior que a dos outros carros
E reflete pra mim a falta que te faz um pênis grande
Não que eu goste Freud
Não que eu saiba de Freud
Mas careta é você reivindicar um tempo morto
Careta.
Careta.
Careta.
E agora a mesma chuva.
A mesma chuva.
Em mim e em você.
(e chove. eu fumo mesmo assim)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

yo la peor de todas

Yo la peor de todas
Acho que fraquejei
Não sou poulanista mas sou pomba
Eu debocho de ti e de mim e choro depois
Depois de tanto verbo a pessoa morre
Eu traí o movimento
Tantas vezes
Eu sou só atrevida,
Às vezes.
Eu não serei só que vocês querem que eu seja
Ou o só o que eu quero
Sou só uma atrevida,
E consequentemente dou muito bom dia a cavalo.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

comentário de Maria Cândida (minha mãe) sobre post do dia 10

Impressão errada. A paixão nunca foi meu forte. Ser branda sempre foi em muitos momentos meu pecado, o caminho escolhido por medo ou certeza.
A revolução nunca foi minha opção, o dia a dia sim.
A luta diária nas pequenas coisas por um mundo melhor e uma luta árdua por convicções, coerência pelo mais certo, que tantas vezes perdi, mas tenho tentado não desistir.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

quarta-feira, 10 de julho de 2013

a cada segundo um combate entre o cigarro e a tela do computador a pia e o feed transbordando de informação a recessão da minha conta bancária o mercúrio retrogrado a incertidão dessa pessoa física com 40 reais no banco que será amanhã das minhas responsabilidades de mulher atriz sem salário fixo desempregada dos ofícios tradicionais mas com tv a cabo e internet banda larga o que faz de mim um pouco coxinha mas não sou dada a pesar de tudo a comiseração sucrilhos não sou dada a pesar de tudo a reivindicações danoninho mas o que sou eu aqui então desempregada chorando as pitangas (?) apesar de privilegiada e apesar disso eu fiquei ontem sem me mover fumado sem parar diante das imagens de uma passeata que eu não fui e chorei egoisticamente de ter me privado de estar onde queria e ao mesmo pensando que na primeira passeata eu tinha mais clareza do que eu achava e pensava e a semana passou como um furacão que senti e pensei tanta coisa ao mesmo tempo sem ter deixado nunca a perspectiva esquerdística que herdei de meus pais hoje tão brandos porem justos porem eu radicalizo as vezes por desejo por anseio por não saber de porra nenhuma mas me vi cantando a internacional me vi enxotando enchapelados e mesmo não me arrependendo das minhas ações nos últimos dias só quero dizer que jamais ficarei em casa e sei que tá longe de acabar e longe ter qualquer entendimento eu quero fazer revolução e amor até mais tarde e fumar depois só depois


23/06

meu cigarro

Meu cigarro nasceu da solidão. Meu cigarro nasceu como companhia. Meu cigarro nasceu da avó do mundo de cócoras a fumar durante a criação da Terra. Meu cigarro é herança de índio, que passeou por Hollywood, Hunphrey Bogart Guarany esfumaçou o glamour de meus avós. Meu cigarro nasceu do maço de cigarros do meu vô em cima da TV. Cinco cruzeiros e o troco de bala. Meu cigarro nasceu deitada na rede desperdiçando insônia e sangue olhando pro céu de fumaça. Meu cigarro nasceu da fumaça que encobre meu pensamento de companhia cheia de herança. Meu cigarro é herança de índio que chora na rede dentro da noite ocidental. 
Minha noite ocidental é cheia de cigarro. Meu cigarro é fruto de pecado de pulmão. Meu cigarro é oficina em plena atividade de ociosidade no ocidente de não sei quando ou onde, meus amores... Meu cigarro é fruto de se eu continuar assim minha ansiedade me mata aos quarenta. Meu cigarro tem cara de comercial dos oitenta. Meus noventa começam com cigarro. E meu segundo cigarro tem gosto de menta.

Meu cigarro agora e só agora tem cheiro de Morrissey, mesmo sempre sido a cara do Nelson, e com a garganta de Rorô sempre sendo Nair Belo. Meu cigarro dói de fôlego, por 17 anos, alguns namoros, um casamento e uma dúzia de peças de teatro. Meu cigarro grita nas minhas roupas, no meu cabelo e no nosso beijo. Nosso casamento tem cigarro e se um dia não tiver, por favor, continue me amando. Por favor, continue me beijando. Meu cigarro também tem algumas janelas e meio fio como herança de melancolia sem libido de uma estrada de minas pedregosa do caralho. Meu cigarro também é volver a los diecisiete violeta violenta com la frente marchita de memória. Meu cigarro também não dói de metafísica. Meu cigarro é o que de mais concreto da minha dor se acomodou como catarro no meu peito.


Marina Viana
Fumante há 17 anos.
Fuma dois maços por dia.

Traga até charuto.

terça-feira, 9 de julho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Lester Bangs de Garagem. Aqui de Casa.


NA GELÉIA GERAL BRASILEIRA QUE O MIMEÓGRAFO brinca de ANUNCIAR, O QUE ESTÁ NA PRAÇA O QUE ESTÁ NA PRENSA, O QUE ESTÁ NA SALA DE CASA, NA GARAGEM, PRONTO PRA SAIR E DEIXAR DE SER PROMESSA.

Eu sempre gostei da “historinha”. Por que a gente monta uma banda com os colegas na garagem de casa? Historinha. Grupo de teatro? Historinha. Namoro? Historinha. República, ménage à trois, foto no muro, casamento na Igreja de uma filha de ex-hippies, poema compartilhado, cover de Ro Ro...  (aliás, que verve falta na voz daqueles rapazes? Como eu queria um Marcelo todo Veronez ali.) Historinha.

 Você topa? E se der errado? A gente mantém o contato visual?  Quem vai primeiro? A gente vai junto. Um de cada vez. Todo mundo junto. É pra durar? E se sambássemos na cara de todo mundo? E a nossa cara? Quer namorar conosco? Nossa cara aguenta? Tá brincando? Isso não existe. A cara sambada? Nosso primeiro single? Da pra curar depois? Me cura? Te curo? Me cuida. Te cuido. Como é que faz?

Sempre gostei de historinha. Uma vez sentada com Marina- Byron-Lipe- Marcelo no Bolão, Marina teve uma discussão com Byron sobre João Gilberto e MC Catra. E eu achei lindo e divertido. Passou um carro tocando funk, e Byron soltou um “queria ter um carro com som pra colocar João Gilberto bem alto” e Marina disse: Byron! Vai tomar no cu! Eu sou mc catra e ponto! A discussão rendeu mais que isso, mas por trás disso tudo tá a historinha, tá o discurso. Marina não escuta MC Catra, mas por que todo mundo tem que escutar João Gilberto? E é só isso que tá por trás dessa discussão? A gente, tão debochado, a gente ainda preso e apaixonado pelo passado e pelos antepassados, a gente que de tão mal passado ainda sangra, até que ponto isso é só sobre musica?  Ainda desconfio. Ainda quero mais.

Nesse mesmo dia, após a discussão eu soltei um “eu gosto mesmo é da historinha”, me referindo a cantores, cantoras, bandas, seus passados, suas mortes, seus amores, suas tentativas, body drama, Elis chorando enquanto canta, ou Elvis errando a letra, muito suado e muito gordo, Caetano improvisando um discurso sobre a juventude que diz que quer tomar o poder. (Alex, Beto e Zé ensaiando musicas na sala de casa sábado passado. Eis que nasce pra mim Glorios Tarcísios.)

Mas quando eu disse isso, Marcelo me arregalou os olhos e disse: “que isso, o que eu gosto mesmo é da musica!”, deve ter ficado muito decepcionado comigo naquele momento. Mas acho que eu não consegui me explicar, hoje eu acho que ele entende o que eu queria dizer. Mas discussões etílicas não são articuladas, são exclamações, manifestos que se perdem, ou perdem verdade ou vontade quando estamos lúcidos no dia seguinte. É cheio de: Nunca! Jamais! Agora! E não tem quizas, quizas, quizas. Por que senão de que vale ficar bêbado se a gente não pode ficar imperativo e convencido, falar merda sem superego... A vida trata de relativizar tudo depois. Tô falando demais. Já ultrapassei meus caracteres e nem comecei ainda.

Cheguei em casa sábado passado, eram umas nove e meia. Abri um conhaque, peguei meu caderninho e fiquei escrevendo enquanto os meninos, os Glorios Tarcísios ensaiavam.

De repente me pego emocionada, comovida como o diabo, seja pelo conhaque ou pelo que estava ao meu redor, (sou uma pomba e nunca neguei),  Glorios Tarcísios é e será banda com verve!(sempre quis usar verve em uma crítica, ou escrever uma crítica para usar a palavra verve) Com vontade de historinha.  Uma ironia 80, diferente da ironia adquirida das novas gerações, que às vezes nem funciona. A ironia dos Glórios desdenha o próprio amor, mas ele tá lá, pulsando, quanto maior o sarcasmo maior a fé. Ironia fake é covardia! Citando o grande escritor Eder Rodrigues que perfuma muito do que escrevo e faço em teatro, “Calvino esqueceu de explicar, que antes de beber dos Clássicos é preciso no mínimo fazer umas embaixadinhas! Então cadê a paixão?”

Rebordosa morreu, já enterraram a porra louca. “Depois do muro a gente não quis mais droga.” Diria João e Ana Lee pra mim, fazendo hora comigo nesse mesmo dia. E eu já tava falando alto demais. Mas é que eu tava adorando tudo.

Enfim não sei nada de música. Sou só amante, amadora. Minha Medéia ainda nem deu conta de matar os filhos. Enquanto o carro do sol não chega, eu redescubro e reafirmo que uma banda na nossa idade não é absurdo. É foda.